Este mito, considerado o relato da Criação do mundo na mitologia babilônica,
descreve na realidade a matança de Tiamat - a Criadora primordial da religião
suméria, Senhora do Oceano da Vida - pelo seu descendente.
Marduk usurpou o lugar e poder de Tiamat e, do seu corpo retalhado, criou a
Terra, o céu, as estrelas e planetas e os seres humanos para servirem aos deuses.
Para justificar o crime, a Deusa Criadora é acusada de ter gerado monstros malignos –
serpentes venenosas e dragões destruidores – para se defender dos planos de Marduk.
O contador do mito implora aos ouvintes para concordar com o crime e descreve com
detalhes o esfacelamento do ventre grávido da Deusa, pisoteado por Marduk depois de tê-
lo esfaqueado. Dessa forma, ao celebrar “a matança da Deusa”, incentiva-se a violência contra
mulheres, tanto nas guerras, como nos lares em casos de subordinação e a necessária e
recomendada punição.
O texto de Enuma Elish usa diferentes argumentos para desacreditar a Deusa, que são
também usados em outros mitos adaptados por escritores motivados por crenças patriarcais.
Primeiro contestam-se os atributos de Tiamat como Deusa Criadora,
regente do nascimento, morte e regeneração, acusando-a de gerar monstros; segundo,
glorifica-se o herói que a mata e terceiro é enaltecido o ato de profanação do ventre
m a t e r n o, a n t e r i o r m e n t e reverenciado como Fonte da Vida. Esse mito era encenado
a n u a l m e n t e n a s c e l e b r a ç õ e s babilônicas de Ano Novo, o festival de Akitu,
para reforçar seu significado ultrajante. O mistério da deusa-dragão e do seu valente
oponente coloca em realce a vitória da consciência heroica representada por Marduk,
em oposição à visão cíclica do mundo centrado em valores comunitários, onde o
coletivo prevalece sobre o individualismo.
Marduk é o primeiro matador de dragões da história, o dragão sendo considerado a representação
da energia telúrica e as próprias linhas de força da terra, chamadas pelos chineses de “veias do dragão”. Com a aceitação e perpetuação do mito de Marduk, uma nova ordem de criação
foi iniciada, em que o feminino simbolizado pela Deusa se torna sinônimo com a
natureza, com características selvagens, escuras, misteriosas, caóticas e perigosas.
Marduk passa a representar a hierarquia de novas divindades masculinas, cuja lei era
conquistar e dominar a natureza, visão que afeta nossa sociedade até hoje, enfatizando a
separação entre espírito e matéria. O mito de criação babilônio influenciou as religiões
patriarcais que inverteram os valores antigos, os deuses originais sendo declarados demônios
e a nova ordem exaltada até a supremacia. Esta herança, até hoje existente na teologia
judaico-cristã, enfatiza a oposição entre espírito e matéria, masculino e feminino e adota a dualidade como lei imutável.