Uma característica que contribui para a abertura e criação deste espaço é que para participar destas danças não é necessário ter experiência anterior. Como os passos são ensinados na hora, quem não conhece a dança tem a possibilidadede aprender e se inserir, o grupo todo aprende junto. Não existe uma preocupação com o erro e o acerto, não é importante saber os passos já nas primeiras vezes, mas assim se sentir a vontade no grupo, colaborando deste modo para desfazer uma rigidez de postura e auto-cobrança, proporcionando que as pessoas aprendam deixando-se levar pelo fluxo da roda. Aos poucos, com a prática, as danças vão sendo assimiladas e aprimoradas, desenvolvendo assim cada vez mais a qualidadede presença, pois como nos coloca Fabre (2010, p. 30):
Para os antigos povos estas praticas de vida social e em comum já eram
algo cotidiano e absorvido. Mas para os que dançam hoje em dia, dançar de mãos dadas, lado a lado, entrar num mesmo ritmo, sem passar a frente do outro, buscar uma sintonia de passos, gestos e desligar do turbilhão do mundo não é tão fácil quanto parece e é sempre necessário um tempo de assimilação e ajuste.
Barton (2006, p. 53) expõe um pouco da sua experiência nos grupos:
Eu cuido para que a maioria do grupo aprenda os passos antes de eu tocar
a música. Isto exige algum malabarismo para ajudar os mais lentos e não
deixar os mais rápidos se entediarem. Portanto, posicionar-se ao lado de
alguém que precisa de ajuda e sugerir que outro aprendiz lento observe o
dançarino (dizer o nome) que pegou os passos, invariavelmente faz com
que a pessoa que você chamou conscientemente ajude o outro e, portanto,
20 não se entedie. Tendo aprendido os passos na velocidade real da música,
lá vamos nós.
Andar em um sentido e depois invertê-lo, girar para um lado, depois para o
outro, balançar o corpo com a troca de peso. Cruzar uma perna a frente da outra, abrir e depois cruzar atrás ou mesmo fazer um passo-junta-passo, sinapses demais para quem não está habituado, chegando a ponto de extrapolar e criar dificuldade mesmo numa simples caminhada, mas que transposta à categoria de dança vira algo mirabolante.
Tudo o que foi dito antes do parágrafo anterior, não deve se desfazer ao lêlo,
pois todo bailarino circular teve seu primeiro dia na roda e tudo é uma questão de tempo, dedicação, ensino e aprendizagem.
Considerando-se dançar em grupo, o grupo que se forma nunca é o mesmo,
os indivíduos podem ter mudanças de humor, sentirem-se mais leves, pesados,
dispostos ou não, dependendo também de quem está ao nosso lado na roda, podem ser pessoas que já estão dançando há mais tempo o que auxilia, ou podem ser pessoas novas que precisam apoio.
Cada grupo que se forma é um, o que não necessariamente modifica a
dança, mas pode modificar a sensação dela. Ao aprender a coreografia,
aprendemos através da nossa capacidade de codificar, mas quando vamos executar normalmente estamos em grupo, e isto acaba tendo uma grande influência na maneira como a dança resulta.
Com a finalidade de acessar a todos, o focalizador há seu tempo, demonstra
passos e gestos, utiliza dicas, imagens; é feito também um pequeno ensaio, ouvimos a música, mas no momento em que a dança inicia e a roda se movimenta, é o instante aonde cada um como uma partícula no todo, vai se ajustar ao ritmo e
sintonizar, uma reação em cadeia, até que todo o círculo pulse na mesma cadência.
Mais uma vez a metáfora do caminho, partimos no círculo e vamos nos
transformando através da experiência.
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